sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sobre brasões e "descendências"

Uma coisa que me tira do sério é gente enchendo a boca para dizer que é europeu, só porque um bisavô seu nasceu na Alemanha ou na Itália que, aliás, nem tinham esses nomes quando o ancestral veio ao mundo. 
Que se entenda bem, não tenho nada contra quem faz cidadania italiana, portuguesa, alemã. Acho até legal. É possível que ainda faça a minha. Não vejo mal nenhum em se pertencer a mais de uma nacionalidade. A questão é como se trata o fato de ter essa origem.
O problema aparece quando os descendentes de europeus utilizam um discurso onde fica claro ou subentendido que isso agrega a eles uma qualidade superior. O mecanismo que gera essas visões tem várias engrenagens. Em primeiro lugar, está um desprezo pelo Brasil, ao qual, por vezes, se agrega os adjetivos "pobre", "atrasado", "mestiço". Junto a isso, vem um enaltecimento da Europa como lugar "rico", "civilizado", "moderno", "branco". A  origem europeia é vista como capaz de transmitir aos seus "afortunados" portadores qualidades como o amor ao trabalho, a ordem e a alta cultura. Essa transmissão se daria, ou por tradição cultural, ou, nos casos menos defensáveis, é vista como sendo dada pela própria biologia, em uma sobrevivência de explicações raciológicas.
Acontece que a Europa de onde saíram milhões de emigrantes para diversas partes da América, no século XIX e início do XX, era um lugar de industrialização, mas também de grande geração de miséria. A lenta dissolução dos direitos consuetudinários ao uso da terra proletarizou inúmeras famílias camponesas. A expansão da indústria arruinou o artesanato tradicional. Foram esses deserdados famélicos que vieram buscar melhor sorte nas novas terras. Ou alguém pensa que foram muitas as pessoas de boa condição social a aceitar a aventura de atravessar o oceano e começar de novo em outro mundo?
Adoro ser historiador, mas esta profissão tem algumas maldições. Uma delas é o parente de um amigo que fez a genealogia da família e nos garante que descende de Carlos Magno pela linha materna e de Adão pela paterna. Aí diz que "tem descendência" alemã ou italiana e que seus ancestrais europeus, que migraram para o Brasil, eram nobres. Daí te mostra o brasão da família, em cima da churrasqueira. 
Dá vontade era dizer que: 1- Não é "tenho descendência" e sim "tenho ascendência" ou "sou descendente", pois "ter descendência" alemã significa que você tem filhos ou netos alemães. 2- Salvo raríssimas exceções, as pessoas que vieram para o Brasil eram miseráveis que buscavam um futuro onde pudessem fazer três refeições por dia. Os antigos servos tomavam o nome de seus senhores ou da região em que viviam (o que dá no mesmo, pois os nobres muitas vezes tinham títulos que incorporavam o nome de seu senhorio). Assim, aquele brasão não é da sua família, companheiro, mas dos nobres que a exploravam.
Mas, na maioria das vezes, não digo nada. Dou um sorriso amarelo e sigo adiante.
Não sou um nacionalista inveterado mas aprecio a adorável mistura que formamos. Além disso, assim como ocorre com a Caminhante, também a mim enerva essa mania de glorificar tudo que é estrangeiro só porque não é do Brasil. Quando morei no Rio de Janeiro que, desde a Era Vargas, dita o modelo do que é ser um natural deste país, percebi que eu não era brasileiro. Depois, morei na França e percebi que era. Ou seja, por mais diferente que eu fosse de um carioca, era muito mais parecido com ele do que com um francês. Ao mesmo tempo, quando vejo os filmes do Fellini ou do Moniccelli sobre as cidadezinhas da Itália, fico impressionado como aquilo tem a ver com a cidade onde nasci e com a minha família. Reconheço em mim muito dos traços daquela cultura e também da alemã, que vem por intermédio de meu avô materno. Não me orgulho desses traços mais do que me orgulho de minha origem indígena ou negra. Mas os reconheço, às vezes com raiva, às vezes com terno e verdadeiro afeto, mas não porque sejam brasileiros, ou italianos ou alemães, e sim porque me remetem à infância, aos meus avós, pais, tios.
As origens culturais estão e mim e me constituem. Não há como fugir e até gosto disso. O nacionalismo radical não. Essa escolha, sim, eu posso fazer.

16 comentários:

  1. O detalhe do uso da palavra "descendência" é a cereja do bolo da ignorância.
    Essa do Brasão da família eu não sabia. Fica o argumento pra quando a oportunidade surgir. Ninguém vai acreditar: vão dizer que sou ressentida porque não possuo a tal cidadania.
    Sabe que eu tenho notado que a coisa tá pior do que eu pensava? Tenho visto tanta gente defender visões tão pequenas de mundo... Ficaríamos chocados de descobrir quantos ao nosso redor ainda acreditam em etnias/raças superiores.
    Triste e real.

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  2. Eu lembrei de uma história engraçada: quando eu estava na Espanha um amigo argentino tinha o costume de jogar na cara dos espanhóis que fomos colonizados, que eles vieram para o nosso continente e mataram os índios, ficaram ricos, etc. Até que uma espanhola disse pra ele - "Meus ancestrais não fizeram isso. Eles ficaram aqui, trabalhando. Se você tem raiva de alguém que tenha ido pro teu país, foram os teus parentes e não os meus". O argentino ficou sem palavras.

    No mais, o teu texto disse tudo. Acho que é tudo um pretexto, e bem inconsistente, pra negar quem somos.

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  3. Giu.
    O impressionante é que, com estes meus sobrenomes e com a minha cara as pessoas estranham essas minhas posições. Vem falar comigo achando que farei eco naturalmente às suas ideias. Aliás, deve acontecer o mesmo contigo, que podia andar em Copenhage sem que achassem que és estrangeira.

    Caminhante
    Hahahahaha. Perfeita essa história.

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  4. Farinatti, traduziste o sentimento que me expulsou da cidade natal. Não tinha, aos 17 anos a mesma capacidade de sorrir amarelo que tenho hoje. Mas ao menos, hoje ninguém me pergunta se meu namorado é "brasileiro", afinal, todos já conhecem a resposta. Afinal, é incômodo para esse tipo de indivíduo, com uma ascedência que é limitadora da sua identidade, ouvir que ele também é brasileiro, ainda mais se quem pronuncia tal afirmação, o faz sem pudor de "renegar" o status que a origem poderia lhe fornecer.
    O que me faz pensar em se é possível que a origem não se transforme em rótulo, em valor. Afinal, um dia quero criar um filho (ou mais, não se sabe ao certo, rsrs) à base de capeletti, por que me deu alegria durante toda a infância, e por que lembra todas as vezes que minha mãe parou pra fechar à mão cada um dos pedacinhos de massa. Mas também não quero que a criança cresça achando que é tantos porcento melhor que outros, nem por um breve minuto, como algum dia me foi dito.
    Dilemas de identidade, rsrs.
    Mas enfim, só pra dizer que adorei o texto.

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  5. Que bom que comentaste, Carla. Vou me dar o direito de ser otimista. Acho que, bem estabelecidos os parâmetros, é possível ter afeto por esses traços culturais geradores de identidade, sem, por isso, aderir e reiterar discursos hierarquizantes.

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  6. Disse tudo o que eu penso sobre ter "descendência" européia. Que migração em massa é essa onde todo mundo era nobre? Se eram nobres e rios porque saíram dos seuss confortáveis castelos pra passar sufoco na América?

    Mas acho que e como diz o Lawrence Stone: quanto mais os tútulos se difundem numa sociedade é porque menos valores tem.

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  7. Como cidadão português, sou superior a todos vocês. Tá bom?

    E muito mais burro.

    :¬))

    Botei este teu texto no Sul21 ( http://sul21.com.br/jornal/2011/04/sobre-brasoes-e-descendencias/ ).

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  8. isso aí. sem perder a ternura...

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  9. Além de estar orgulhoso desta caixa de comentários, destaco o ótimo debate que a Cláudia Antonini,o Alessandro Almeida e o Arthur Ávila proporcionaram no Facebook a partir do post

    http://www.facebook.com/profile.php?id=100000929279165

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  10. Olá,
    Muito bom texto.
    Acho que esse amor pelo estrangeiro é um habito antigo. Um atavismo do século XVIII que ainda domina corações e mentes dos que sabem ler e ainda sonham com os queijos e tecidos do Reino.
    Essa fascinação pelo Reino (quelquer que seja o país que ocupe esse "lugar") era reforçada pela ideia de fracasso, que marca nossa alma. O Reino, é um sucesso, nós, apenas podemos sonhar com estudos em Coimbra e compras em Paris (que parece ter se mudado pra Miami).
    Mas isso os que já sabiam ler há tempos.
    Resta saber se essa fascinação pelo Reino vai se reproduzir nos novos letrados ou, como dizem, na nova classe média.
    Abraços do Planalto,
    Paulo

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  11. Me lembrei de Odete Roitman de Vale Tudo vindo da Europa e dizendo: Aqui(Brasil) é um bando de Tupiniquin, uma mistura de raças que não eu certo, as pessoas nem viajem anualmente para Buenos Aires!!!!!!!!!! kKKKK
    Mas é isso professor, muito já escutei também sou de "descendência" alemã ou italiana. É uma mistura de menosprezo pelo Brasil com a vantagem de ser de raça superior. E essa ideia de raças me perturba!!!! É raça, uma raça e é raça humana!

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  12. Luís Augusto: PARABÉNS! O seu texto abre espaços preciosos na luta cotidiana contra certos elitismos que só nos amesquinham as relações, neste país que infelizmente ainda está acorrentado a uma "genética" colonizada, independentemente de etnias e miscigenações. É bom notar que os escudos, as máscaras, as couraças com brasões, e todo tipo de afetação ligada a transcendências espúrias desse tipo, que nada mais são do que escapismos diante da mediocridade dominante, são apenas parte de uma lógica excludente muito mais ampla. O mais estranho é perceber que há quase uma naturalização do apelo ao status, justo num momento em que, por exemplo, se democratiza o acesso ao cosmopolitismo de fato, entre nós brasileiros. Ou seja, cada vez está mais fácil cá entre nós conhecer outras partes de um globo que há não muito tempo era apenas uma abstração a girar sobre o eixo das impossibilidades. Pequena parcela dessas pessoas que agora começam a concretizar o sonho de viajar até terras distantes se arroga uma origem nobre, defendida por brasões e outras labirintites, desde uma sociedade que ainda engatinha em termos de humanismo. É triste notar que essa mentalidade excludente é fruto de séculos de colonização que se foram entranhando, de tal modo que se faz urgente um processo de politização através da crítica dos costumes e dos valores. É lá onde reside o moralista que devemos praticar a nossa ração diária de politicidade. Muito além de maniqueísmos estanques, hoje é preciso multiplicar nossos arsenais e nossos alvos políticos, por vezes apontando para nós mesmos a sempre pacífica e sa-lutar arma da inteligência, para que enfim nos emancipemos de âncoras enferrujadas que só nos imobilizam. Não era intenção minha escrever um outro texto, muito menos incorrer em certa verborragia generalista. Mas creio para aquelas pessoas que alcançaram a profundidade de seus argumentos, caro Lu;is Augusto, ficará fácil compreender meus comentários. Há braços,

    Jamal Calado

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  13. Belo texto. Concordo plenamente com você. Aqui no Rio Grande do Sul existe uma culturinha rastaquera que insiste em procurar uma nobreza que teríamos. É sempre bom lembrar que os imigrantes que para cá vieram eram miseráveis; até presidiários foram enviados. Nenhum "europeu, nobre, rico" sairia de sua terra para tentar a vida em outro continente...
    O lamentável desfecho do hino do estado é um bom exemplo dessa nossa faceta. Não somos modelos a serem copiados pela humanidade.

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  14. Seguimos com ótimos comentários. Fico muito feliz que o texto os tenha suscitado.

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  15. EU ACHO QUE VC´S ESTAO DANDO IMPORTANCIA SIM A NOMES E BRASOES, PORQUE O ASSUNTO LHES ENTRISTESSEM TANTO.
    SOU BRASILEIRO, DESCENDENTE DE BRASILEIRO, E VOU MORRER BRASILEIRO ORGULHOSO, PORQUE SOU DIGNO, NAO DAREI AOS MEUS FILHOS A EDUCAçAO DOS EUROPEUS QUE LEVAM HOMENS PARA DENTRO DE SUAS CASAS PARA TRANSAR COM SUAS ESPOSAS, QUE SUPERIORIDADE É ESTA, SUPERIOR PRA MI, É A PESSOA DIGNA QUE VIVE DEACORDO COM OS INSINAMENTOS DE DEUS, TENHO ORGULHO DO MEU PAIS, SOU BRASILEIRO.
    AGORA FALANDO DE BRASAO, MEU NOME TAMBEM TEM, SOU DA FAMILIA NASCIMENTO, PRA MIM É ATE ORGULHO POIS ESTE NOME ERA DATO POR HOMENAGENS AOS EUROPEUS, EM HOMENAGEM A JESUS CRISTO, AGORA SE FOR PRA ESCOLHER ENTRE OS NOBRES E OS ESCRAVOS QUE ADQUIRIA O SOBRENOME DE SEUS PATROES, PREFIRO SER DA DECENDENCIA DOS EMPREGADOS.
    ESPERO QUE ISSO DEIXE BEM CLARO QUE O BRASIL COM TODO O DEFEITO QUE VC'S POSSAM ENXERGAR, AINDA É A MELHOR NAçAO.
    ENFIM, SO PRA ENCERRAR, JA VIVI NA SUIçA E PORTUGAL, ENTAO FALO COM PLENA CONVICçÃO, SOU BRAZUCA ...
    VALEU!!!!

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