domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bodas de Caná

Uma noite dessas, eu conversava com a Nika sobre a grande utilidade do poder de transformar água em vinho. Foi aí que começamos a imaginar a passagem das Bodas de Caná com um pouco mais de detalhe. Desde então, não adianta, cada vez que quero tomar um vinho e não tem em casa, me lembro da versão que criamos, conjuntamente. Era algo mais ou menos assim.


A mulher estava conversando com as amigas sob uma ramada, onde haviam colocado alguns bancos para os mais velhos. Ergueu a cabeça e chamou o filho.


“Jesus, vem cá.”

O rapaz fez que não ouviu, e seguiu contando uma história para um grande grupo de jovens, que ouviam-no com verdadeiro encantamento.

“Jesus, a mãe tá chamando, filho.”

Era pior ignorar. Jesus então chegou bem perto da mãe, com esperança de que os outros rapazes não ouvissem a conversa.

“Acredita que está faltando vinho? Os parentes do noivo estão desesperados. Imagina o vexame...”

“E eu com isso, mãe? Nem estou bebendo, hoje.”

“Jesus, não te faz! Você sabe do que eu estou falando”.

“Mãe, nem vem!”

“Mas o que te custa, meu filho?”

“Não vou pagar um mico desses na frente do pessoal!”

Então, Maria olhou para as amigas que, até agora, não estavam entendendo sua conversa com o filho e disse, quase sem caber em si:

“Ele sabe transformar água em vinho.”

“MÃE!”

O grito de protesto do rapaz foi quase abafado pelos Oohhs e Uuhhs, das amigas da mãe.

“Transforma, meu filho.”

Os olhares das mulheres, agora, estavam completamente vidrados naquela conversa, cheios de expectativa. Jesus olhou feio para a mãe.

“Não vou fazer.”

“Está bem, então, mas fique avisado que eu já disse aos noivos que você declama muito bem. 
Eles até pediram uma amostra depois da ceia.” Maria voltou-se para as amigas: “Precisam ouvir a oratória dele. Uma vez falou no templo, tinha só 12 anos, os sacerdotes ficaram impressionados. Meu sonho é ver ele no Monte das Oliveiras. Tem aparecido cada canastrão por lá...”

Jesus olhava para Maria, incrédulo. “Eu não vou declamar!”

“Bem... isso se pode arranjar. Vai ser um problema, mas o que uma mãe não faz pelo filho, não é mesmo?” Deu um suspiro virando-se para as outras, que lhe devolveram acenos de aprovação. “Posso dizer aos noivos que você é um moço discreto, como convém, e não quer roubar a festa. Mas eles vão achar que é desfeita sua, que está cometendo o pecado da soberba.” Olhou para o chão e continuou, quase como se falasse para si mesma “A não ser, é claro, que você já tenha feito um grande favor a eles.”

Jesus soltou os braços, cansado, virou as costas e caminhou até umas talhas vazias que estavam na entrada da festa. Chamou o mestre de cerimônias e pediu que enchessem as talhas com água.

Maria apontou para as amigas “Olhem, olhem.”

Jesus então tomou um cálice nas mãos, encheu com o líquido e deu ao mestre que, após beber, deu um longo abraço no rapaz.

Jesus tornou a encher o cálice e, caminhando mais animado e um tanto cheio de si, foi até onde estava Maria. Esticou-o até ela e pediu que provasse.

Maria sorveu o vinho enchendo a boca, olhou para o céu e, só depois, engoliu.

Jesus, então, perguntou-lhe “Satisfeita?”

Maria olhou para o lado, sem entusiasmo “É...”.

Jesus exasperou-se. “O que foi agora, mãe? Não queria que eu transformasse água em vinho? Pois transformei!”

Maria tomou as mãos do filho entre as suas e disse, em tom conciliatório “Meu filho, não precisa ficar irritado. Eu pedi, você fez. Está bem!”

“Te conheço, mãe. Qual o problema?”

Maria olhou para os lados, sem querer encarar o filho “Certo, filho, água em vinho. Está bem, mas é que...” Ergueu novamente os olhos para ele “Sinceramente... Beaujolais...”


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Facebook da Revolução Farroupilha

Eu e meu colega Jonas Vargas estamos pesquisando a ação da família Ribeiro de Almeida como mediadores políticos no Império. Estava refazendo a trajetória do "Capo" Bento Manoel Ribeiro durante a Revolução Farroupilha e olha só no que deu. 
Definitivamente, tenho passado tempo demais na internet!
(O mapa do RS e Uruguai tirei daqui http://ligacaohistorica.blogspot.com) 

- Bento Manoel começou uma amizade com Bento Gonçalves, Domingos de Almeida e com mais 200 pessoas.



- Bento Manoel e mais 200 amigos curtiram “Fora Braga!”, em causes.

- Bento Manoel via Bento Gonçalves “Proclamação aos Rio-grandenses!”




- Bate-Papo: Bento Manoel não está on line.

- Bento Manoel iniciou uma amizade com José de Araújo Ribeiro.

- Francisco de Sá Brito está respondendo perguntas sobre Bento Manoel: Será que ele passaria para o outro lado? Será que ele consegue o apoio do Rivera? Será que ele é mesmo bruxo? Você acha que ele já dormiu com três chinas de uma vez?

- Bento Manoel e Olivério José Ortiz mudaram suas fotos do perfil.

- Bento Manoel apoiou “Legalidade” em causes.

- Bento Manoel foi bloqueado por Bento Gonçalves, Domingos Almeida e por mais 150 pessoas.

- Bento Manoel adicionou “Comandante Geral das Armas” em “Educação e Trabalho”.

- Onofre Pires e Bento Gonçalves foram marcados nas fotos de Bento Manoel, no álbum Fanfa.



- Bento Manoel prendeu o Presidente da Província (Domingos de Almeida, Bento Gonçalves, Demétrio Ribeiro e mais 180 pessoas curtiram isso)

- Bento Manoel mudou sua foto do perfil.

- Bento Manoel compartilhou o link “República Rio-grandense”.

- Bento Manoel modificou seu status:  adicionou “General” em Educação e Trabalho e “republicano” em filosofia.



- Bate-papo: Bento Manoel não está on line.

- Bento Manoel adicionou fotos no seu perfil. Álbum “Emigrado no Uruguai”.


- Frutuoso Rivera foi marcado em foto de Bento Manoel.

- Bento Manoel mudou sua foto do perfil.

- Bento Manoel curtiu o link “Viva o Imperador”.



- Bento Manoel modificou seu perfil para “Monarquista graças a Deus!” em Filosofia e Religião.

- Bento Manoel iniciou uma amizade com Barão de Caxias.

- Bento Manoel acrescentou Marechal em Educação e Trabalho.

- De saco cheio, Bento Manoel largou o facebook e foi ganhar muitos pontos na "Fazendinha" !


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cindy Lauper e os espantosos anos 80

Pois e não é que, lendo esta matéria do Sul 21, descubro que a Cindy Lauper se reinventou e agora envereda pelo Memphis Blues. Ela estará em Porto Alegre no dia 1o. de março.

A matéria me deu vontade de tentar redescobrir Cindy. Porque ela estava em um canto remoto da memória. Até aqui, ela era apenas uma daquelas cantoras desinteressantes, que faziam as meninas da minha geração esculpirem seus cabelos de modo a parecer uma instalação de arte moderna.

Naquela época, eu achava que sabia tudo da vida. E também achava que Cindy Lauper e Boy George eram a mesma pessoa.





Do mesmo modo que a Bonnie Tyler (aqui em um dos clips mais horrendos já feitos)




havia desistido da carreira, comprado um time de futebol na Escócia e decidido envelhecer pacatamente como Rod Stewart.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Meu Irmão Pequeno

Aconteceu em 1983 ou 84, quando nós ainda morávamos em Jaguari e foi pura verdade. Naquele ano, se deu a maior de todas as enchentes. A cidade ficou ilhada e muita gente pobre perdeu tudo o que tinha. Mas houve quem até achasse interessante, porque a cidade apareceu na televisão, proeza nunca alcançada por Santiago ou São Vicente.

Então disseram que vinha o Ministro e até o Governador. O meu tio era o vice-prefeito e decidiram que as autoridades iriam no carro dele. Meu tio gostava muito do meu irmão, que tinha sete anos e era uma fera, se irritava por qualquer coisinha. Quando chegou o dia, juntou um mundo de gente no Campinho das Irmãs. Para ver o helicóptero.

A máquina pousou e começaram a descer os homens de gravata. Meu irmão disse ao meu tio que ia voar no helicóptero. Meu tio disse que ele nem fosse louco e se comportasse. Meu irmão ficou furioso. Daí veio vindo o Governador, apertando mãos e pegando crianças para beijar. Quando chegou no meu irmão, o homem mal teve tempo de fazer o beiço, o guri pegou ele à traição, fechou o punho e deu um soco de baixo para cima. No saco do Governador.

Enquanto se dava o “Deus nos acuda”, meu irmão permanecia ali, de braços cruzados sobre o peito, duro como um pau e cheio de razão, com o orgulho típico dos injustiçados.


Mário Andreazza, então Ministro do Interior. Escapou por pouco.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Luz em Agosto, de W. Faulkner - Parte 2

Luz em Agosto foi publicado em 1932 e é um romance de grande estatura literária. Tenho certeza de que, nesse tempo todo, deve ter se prestado a centenas de teses, artigos, livros, que provavelmente exploram suas múltiplas dimensões literárias, sociais e psicológicas. A esse respeito, li apenas os belos textos do Charlles Campos e da Caminhante, em seus blogs. O que segue, na segunda parte desse texto, são notas de uma leitura feita em tardes de calor escaldante de um verão desumano. E se centram em apenas um dos fios dessa refinada tapeçaria tecida pelo autor, a partir de um fluxo de pensamento que não conseguiu me abandonar desde a leitura. Escrevo sobre a relação entre a trajetória de Joe Christmas e ética religiosa que age como estruturante cultural no Sul dos Estados Unidos, tal como retratado por Faulkner nesse romance. Desde já sugiro aos navegantes que aqueles que não leram Luz em Agosto, não leiam agora os comentários que seguem, pois eles revelam muito do que o autor trata habilmente de esconder do leitor nos capítulos iniciais. A descoberta dessas partes da trama compõe a construção do prazer lúdico da leitura. É apenas uma sugestão, mas, com certeza, eu não abriria mão dele.

A trágica aventura de Joe Christmas (como disseram a Caminhante e o Charlles, um “solitário, calejado, sofrido, maltratado”) instala uma impressão funda no leitor. O que quero destacar aqui é apenas um dos aspectos que poder ser lido a partir desse personagem. Joe Christmas, possivelmente, tem ascendência negra e branca, embora sua aparência permita que passe por branco, naquela sociedade racista.

Em outras palavras, trata-se de um híbrido, um mestiço em uma cultura que não admite a mistura, uma cultura feita e refeita por gente que se esmera em construir e preservar barreiras. Sejam elas barreiras raciais ou diques para represar os desejos. Uma cultura que, em um paradoxo que é apenas aparente, tem flexibilidade para aceitar a mobilidade, desde que essa mobilidade não ultrapasse uns poucos, mas inderrogáveis princípios, que formam aquilo que os brancos acreditam ser as leis da natureza. No Sul retratado por Faulkner, uma dessas leis estipula que os pretos trazem consigo o sinal da danação, de sua condenação pelo Senhor Todo Poderoso. Nesse contexto, qualquer mistura carrega duas marcas tidas como diabólicas: em primeiro lugar, denunciam a presença do sangue negro; em segundo, criam um hibridismo, em um mundo que não suportava o desmanchar dos limites e das fronteiras. Esse hibridismo é logo desfeito por ser tão monstruoso que é inimaginável: a cultura não o concebe e não o admite. Se a pessoa tiver qualquer parte de sangue negro reconhecível, será negro, porque será, para essa cultura racista e puritana, um impuro.

Veja-se que, até os derradeiros instantes de sua vida, quando a possível verdade sobre seu passado lhe é revelada pela Velha Vestida de Roxo, o próprio Christmas tem dúvidas sobre sua história, não tem certeza se tem mesmo o sangue negro. Aliás, o leitor nem mesmo consegue ter essa certeza ao final do livro. Tudo é apenas presumido. Porque nada pode ser fácil de deslindar quando o assunto é uma mistura, em uma cultura que a considera um tabu.

Esse hibridismo tratado como dualidade (porque não consegue ser verdadeiramente uma mescla) é estruturante dos conceitos que o próprio Christmas vai empregar quando construir narrativas para tentar compreender sua própria trajetória. Quando compuser uma narrativa para tentar dar sentido à sua própria vida com “a memória que acredita e o conhecimento que recorda”, nas palavras de Faulkner. É por isso que esmurra a moça negra no celeiro, associando-a à sua porção que considera amaldiçoada. Associando-a a uma possível imagem da mãe, já que, àquela altura, não sabia de qual de seus desconhecidos pais tinha herdado a porção de sangue negro.


É desse modo que se constituíram duas das fases de sua vida. Uma delas quando está sob a tutela do padrasto Mr. Mc Eachern, que encarna um quase-arquétipo paternal do mundo dos brancos e da ética puritana. Educado assim, abaixo de surras e orações, de trabalho e silêncio, Christmas chega, finalmente, a ter algo de seu: uma vaca, sua propriedade, recompensa por seu trabalho. Porém, quando resolve colocar a perder tudo e experimentar o que sente como sendo “o outro lado” de sua natureza, é exatamente essa a vaca que vende, penetrando no submundo da cidade e, por fim, tendo provavelmente assassinado o padrasto. Então sairá pelo mundo e procurará viver como os negros, que sua própria imersão na ética do Sul o sugere ser o caminho da inversão de tudo que havia experimentado até aquele momento.

Contudo, no universo de Faulkner, o desventurado Joe Christmas está condenado a partilhar dois mundos, sem ter a chance de optar por apenas um deles. E a sofrer poderosa influência dessa ética que o despreza. Isso se expressa, por exemplo, no ódio que Christmas tem a ser alvo de piedade. O que fica claro nas diferentes relações que mantém com algumas das mulheres e dos homens da sua vida. Lembremos que ele enfurece quando Miss Burden declara que seria tolerante se ele lhe roubasse, quando se tornasse seu advogado. A mesma atitude condescendente com alguém inferior que se quer agradar, que antes já havia sido a de Mrs. Mc Eachern e que o fazia odiá-la.

Já, às figuras paternas, fosse o Porteiro do Orfanato ou o implacável Mr. McEachern, mesmo com toda a rigidez e a violência e o ódio que lhe reservavam, Joe Christmas dava respeito, porque o tratavam como alguém capaz de suportar o horror. Tratavam-no como um forte. Interessavam-se por ele, mas sem condescendência. Christmas odeia que lhe dispensem condescendência. Associa essa atitude a uma emasculação. Não por acaso, essa será a violência última que sofrerá. Por ironia, mas de modo muito significativo, a verdadeira castração virá das mãos de alguém que é homem e branco. Mais que isso, um representante oficial de todo o pensamento hegemônico que dita as regras sob as quais está organizado aquele mundo.

Castrado, Christmas não poderia jamais procriar, ainda que sobrevivesse. De fato, não havia procriado em nenhum dos vários relacionamentos que mantivera ao longo da vida. Aliás, esse foi justamente o pomo da discórdia entre ele e Miss Burden. Assim, não disseminaria a abominação que é, e que o tornava uma quimera, algo impensável para aquela cultura.

Esse repúdio a ser vítima de piedade, a ser reconhecido como fraco, que está entranhado na alma de Christmas é, por sua vez, uma característica da ética religiosa de traços puritanos que preenche aquela sociedade como o ar que é respirado por cada um e metabolizado de diferentes formas, sendo assim apropriado de modo um específico por cada ser. Cada um cria uma variedade da mesma ética, que pode expressar-se tanto no colérico fanatismo do Tio Doc, na silenciosa violência de Mr. McEachern ou no orgulho legítimo de Mrs. Armstid, avisando ao marido que faria o que bem entendesse com o dinheiro ganho a partir da venda dos ovos das galinhas que ela mesma, e mais ninguém, teve o trabalho de criar.

Essa cultura que preza o trabalho, a disciplina, a obediência religiosa e vê nos negros o sinal inefável da danação eterna estriba-se na construção de certezas inabaláveis. Não se deve admirar que a bíblia e os rituais cristãos venham a servir como o repositório dessas certezas. Eles tem se prestado para isso há milênios. Mas, não nos enganemos, não são a crença e a fé em deus que são essenciais. O que é primordial para os camponeses de macacão, com seus cachimbos, mulas e rezas nas quartas e domingos, é própria possibilidade de ter certezas. A possibilidade de acreditar que há princípios sólidos e imutáveis ordenando o mundo. Nada expressa melhor essa ideia do que a percepção de que os homens que faziam o cerco a Christmas agiriam sem qualquer possibilidade de ter piedade. Porque ter piedade seria admitir que poderiam estar errados, que a ordem universal talvez fosse uma ficção ou então ser insondável mesmo para os crentes. Naquele mundo, nada poderia ser mais subversivo.


Luz em Agosto, de W. Faulkner - Parte 1

Cheguei a Luz em Agosto, de Faulkner, através dos posts e debates entre Charlles Campos e a Caminhante. Enquanto os lia, minha vontade de, finalmente, tirar o atraso na leitura de Faulkner se tornava irresistível. Coloquei o Miguel no carro e fui até o campus da UFSM, onde retirei o livro na biblioteca. O post ficou tão grande que o dividi em dois. O primeiro é uma pequena apresentação e publico hoje. O outro, que vou publicar amanhã ou depois, eu não recomendo para quem ainda não leu o livro, porque "entrega" partes importantes. Tudo pensado bem rápido e no calor do momento. Calor, aqui, não é apenas figura de linguagem, pois o livro foi lido nas tardes abrasadoras de janeiro.


Luz em Agosto, de William Faulkner. Editora Nova Fronteira, 2a. ed., 1983. Trad. Berenice Xavier. (Edição original é de 1932)



Uma mulher se desloca por uma poeirenta estrada do norte do Mississipi. Avança com uma determinação tranquila, ora conseguindo carona nas carroças dos camponeses, ora mesmo a pé. Está grávida. A todos que lhe ajudam, ela conta sua história, ainda que não tenham pedido. Vem andando desde o Alabama, estado vizinho, à procura do marido que partiu atrás de trabalho e que prometeu mandar buscá-la quando se estabelecesse. Seu destino, agora, é a cidadezinha de Jefferson, onde soube que ele talvez estivesse trabalhando em uma serraria.

Nesse estabelecimento, está empregado Byron Bunch, que trabalha mesmo aos sábados à tarde, quando todos os seus companheiros deixaram o local ao meio-dia. Bunch segue sua rotina naquelas tardes solitárias, respeitando todos os horários como se estivesse em um turno de trabalho regular. Assim, pensa fugir do mal. Em uma dessas tardes de sábado, ele vê surgir uma coluna de fumaça no horizonte. Acaba sabendo que se trata de um incêndio na propriedade de Miss Burden. Nesse local, em uma antiga cabana de negros, vivem dois ex-trabalhadores da serraria. Bunch recorda deles. Joe Brown era extrovertido, eloquente, de boa aparência e claramente um patife. Já Joe Christmas era um tipo estranho, trabalhando nos primeiros dias com camisa e gravata. Enquanto medita sobre a possibilidade dos dois estarem envolvidos no incêndio, Bunch recebe a visita, na serraria, da mulher que vem em busca do marido ausente. Esse encontro põe os personagens em contato no tempo presente e, a partir daí, o autor começa a tecer uma rede bem urdida que dá corpo ao romance.



A técnica narrativa empregada por Faulkner faz a ação no presente andar lentamente. E aposta em enveredar-se pelo passado de cada um dos personagens, conduzindo o leitor em um mergulho ora melancólico, ora vertiginoso sobre suas histórias. Quando retornamos ao presente ficcional, voltamos cheios de novas informações, mas, sobretudo, de sensações e de conhecimento sobre a personagem. A cena do presente à qual retornamos está no mesmo instante em que a havíamos deixado, mas nossa percepção sobre ela será outra e nosso conhecimento, maior. Os personagens, que antes haviam apenas passado pela cena como um desenho de fundo, ganham outras dimensões. Ganham carne, sangue, cheiro, dor e memória. Não é que suas histórias pregressas nos expliquem mecanicamente suas ações no presente. Faulkner, autor maior, não cai nessa armadilha. O que ocorre é que, ao voltarmos, encontramo-nos capazes de empatia para com o personagem. É isso o que redimensiona totalmente a posição do leitor em relação às ações passadas no presente e o faz dar novos sentidos à trama que se desenrola à sua frente. A dura compaixão sem concessões com que Faulkner aborda cada história pessoal faz uma estranha, mas interessante, composição com a escolha de uma narrativa onde não falta o uso descarado do suspense, da arte de enganar o leitor. Ali, o contador de histórias se casa muito bem com o crítico social e com o poeta da condição humana.

Luz em Agosto é um romance onde é explorado, até o fundo, o drama de seres que lutam não apenas com seus afetos, mas com um poderoso universo cultural, assentado em uma rigorosa ética religiosa que lhes amarra os movimentos, atormenta as consciências e quer limitar a realização de seus desejos. O sul dos Estados Unidos, racista por princípio e inescapavelmente religioso, vai aparecendo como uma imagem maior de um quebra-cabeças, da qual os personagens e suas vidas aventurosas ou patéticas são as peças. É uma imagem que se concretiza muito para além dos estereótipos. Os dramas giram em torno do modo como cada um vive com e contra essa cultura; seja reagindo contra ela, como Joe Christmas e Lena Grove; seja negociando e submetendo-se, como o ex-ministro protestante Hightower; seja radicalizando-a e fazendo de sua vida um teatro que mostra a todos as formas mais potentes dessa ética religiosa, como Mr. McEachern. Assim, entre outros sentidos possíveis, o romance todo é uma aula ensinando que é pela ação das pessoas em construir suas trajetórias, em lidar com seus fantasmas e com os outros, que o Sul se constrói e que o racismo e o puritanismo religioso ganham forma concreta.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Formatura. Alegria, Alegria!


No sábado, fui à  formatura de meus ex-alunos da Unifra.
Quase derreti por debaixo da beca. A grande maioria das pessoas odeia formatura. Geralmente, há mesmo muito para odiar: calor e ar condicionado que não dá conta; músicas bregas; uma ou duas organizadoras um tanto histéricas; mulheres excessivamente maquiadas; decoração exagerada; discursos que seguem fórmulas óbvias; pais que insistem em levar crianças de colo; o berro dessas crianças; buzinas.
Porém, eu sinto diferente. Quando a formatura é de alguém que gosto, eu realmente adoro a solenidade. É um momento onde muita gente está feliz junto. Uma catarse como só os ritos de passagem podem ser. Nesse caso, gostei do discurso do Leandro, orador, e adorei o da Nikelen, paraninfa. Se bem que, no caso dela, não julguei com discernimento, porque eu a estava achando bem bonitinha.
Quando participo, como paraninfo ou homenageado, o que era o caso então, gosto de ficar olhando para os pais e avós dos formandos. Aqueles velhos do interior, vindos sabe-se lá de que biboca, com seus bigodes brancos, com suas camisas recém compradas e ainda não lavadas, que parecem sempre menores do que deviam. Olhando para seus filhos no telão como se estivessem presenciando um passe de mágica. Aquelas mulheres cujas mãos cheias de calos receberam o acréscimo de uma orgulhosa pulseira, mal acomodadas no vestido feito sob medida por uma comadre que é costureira. Olhando para seus filhos quando passam no corredor como se eles fossem os únicos a se formar. Como se nada mais houvesse no mundo.
Assim que a coisa acabou, me atirei do palco e fui abraçar cada um deles. E receber dos pais vários abraços como se eu fosse uma pessoa conhecida de muitos anos. Pouca coisa pode superar isso na vida de um professor. É piegas, mas fiquei contaminado pelo clima.
Depois, fomos para a festa do Max, Leandro e André. Quando íamos embora, a mãe do Leandro sequestrou o Miguel e o levou para a pista de dança. O guri dançou, dançou, dançou, deu um beijo na namorada do Leandro e só parou quando eu e a mãe dele o arrancamos de lá, sob gritos de protesto.
É definitivo: eu adorei!