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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Comprei “Terra Sonâmbula”, primeiro romance do escritor moçambicano Mia Couto, há dois ou três anos. Comecei a ler, parei com um terço do livro lido. Tinha intenção de retomar logo, mas não o fiz. Neste fevereiro ardente de férias sem viagem, meti a mão na estante e resolvi tentar a sorte de novo. Comecei a ler e não conseguia parar. Qualquer interrupção me deixava louco de vontade de voltar ao livro. Os enredos se passam em Moçambique, durante a guerra civil que esfarelou as estruturas daquele mundo, e falam de pessoas que têm que inventar um novo modo de viver em meio a esse caos.

 Terra Sonâmbula. Mia Couto. Companhia das Letras,  2007.


O menino Muidinga nada recorda sobre seu passado. Tudo que sabe é o que lhe conta seu companheiro de jornada, o velho Tuahir. Este, com serviço de enterrar corpos em um campo de refugiados, acabou por salvar Muidinga de ser enterrado vivo. Ensinou novamente o menino a andar e falar, mas nada pode informar sobre o que este teria vivido antes. Os dois, então, vagueiam pela estrada em meio às desordens da guerra, aos assaltos dos bandos armados, aos desmandos das autoridades. Tudo é perigo naqueles lugares. Encontram um ônibus carbonizado à beira da estrada e fazem dele um abrigo. Próximo ao veículo percebem uma mala. Dentro, há cadernos onde um tal Kindzu conta sua jornada. Durante o dia, saem para explorar a região. Durante a noite, o menino lê as histórias para o velho. Conforme avançam na leitura, percebem que é como se o ônibus em ruína pudesse mesmo viajar no espaço, porque a paisagem e as gentes que encontram de dia são sempre diferentes. O livro traz ambos os enredos em paralelo.

Eu entendo quase nada da África ou de Moçambique, a não ser algumas referências de pesquisas históricas ou o que me contaram amigos que ali viveram. Com certeza há no livro muito que, para alguém como eu, não é possível alcançar. Há propriedades metafóricas na história do menino sem memória, que vaga em meio à destruição da guerra que se seguiu à independência do país. O menino procura por essa memória, que também pode ser lida como uma busca por identidade e pela capacidade de dar sentido àquele mundo estilhaçado. Do mesmo modo, a relação da tradição com os novos tempos aparece a toda hora. Por exemplo, no fato de Kindzu ter abandonado sua aldeia, deixado de servir aos ancestrais vivos e mortos e, então, ser amaldiçoado pelo espírito de seu pai, que lhe segue na viagem. Ou então na inadequação de uma modernidade importada que rende algumas passagens hilárias, os poucos momentos risíveis em um livro que provoca, mais que isso, um contínuo aperto no peito do leitor. Provavelmente, os personagens a quem se vai encontrando e desfiando as histórias também são caminhos para pensar aquele lugar: Dona Virgínia, o Fazedor de Rios, o velho aldeão Siqueleto, o português Romão Pinto, o administrador Estêvão Jonas.

Porém, como todos os grandes livros, “Terra Sonâmbula” permite diferentes apropriações, rende sonhos e pensares diversificados. Toda a obra é tecida com uma linguagem poética dotada de profundo lirismo, que põe a gente a sentir.

- É o que, mãe?
- É que estou grávida maistravez.
A velha devaneava, sonhatriz. Com aquela idade como poderia ela se duplicar? A voz dela, porém, trazia certezas capazes de me confundir.
- Estou grávida, filho. Não é de agora, é já de muito tempo.
- Muito tempo, quanto?
- São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim dentro de mim, me companha o coração.

Por toda parte, há laços que se romperam, familiares, amigos, amantes que se buscam. Kindzu é perseguido pelo espírito de seu pai, o velho Taímo. Porém, por vezes o chama, quer carinhos paternos, muito dificilmente conquistados. É parecido com Muidinga e Tuahir. Este, de certo modo, também pai daquele, porque lhe trouxe para a vida quando estava quase morto. No mesmo caminho está Farida, amor de Kindzu, em busca de seu filho desaparecido. É um mundo roto, onde cada um é um sobrevivente tentando escapar da guerra, seja à procura de seus queridos que se perderam, seja em busca de outro lugar, uma terra em paz. Em meio a tantos fragmentos, contar histórias é quase uma dádiva. Os escritos de Kindzu sobre sua vida são matéria para que Muidinga componha seus próprios sonhos, para que vá conferindo sentido ao mundo que, a custo, procura entender. É Muidinga quem conta essas histórias para Tuahir, que lhe retribui com as suas. E o mesmo ocorre com os diversos personagens que os protagonistas dos dois enredos encontram.

Para mim – um contador de histórias e também filho e também pai – essa foi, de tantas belezas ali encontradas, a principal ressonância do livro de Mia Couto. 


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Contos de Futebol, de Aldyr Garcia Schlee




Eu nunca havia lido o Aldyr Garcia Schlee. Conhecia-o por ouvir dizer. Um escritor, morador da fronteira com o Uruguai e o homem que criou o uniforme canarinho da Seleção Brasileira, ao ganhar um concurso, em 1953. Depois, uma amiga foi a um evento sobre o pampa, em Jaguarão, e voltou encantada com a fala que o Schlee fez lá. Então, assisti a “O Banheiro do Papa”, belo filme uruguaio, baseado em um conto seu. Por fim, li esta entrevista que o Iuri Müller e o Maurício Brum fizeram com ele.

Pois acabo de ler pela primeira vez um livro dele “Contos de Futebol”. Publicado, anteriormente, no Uruguai, chega agora em português pela editora Ardotempo. Nada de surpreendente para um autor que cresceu na fronteira, que escreve em português e em espanhol, que criou o uniforme da Seleção do Brasil e sempre viveu o futebol uruguaio com enorme intensidade.

A obra de Schlee é trabalho de fronteiriço e os contos se passam todos na ampla zona de fronteira entre Brasil e Uruguai, ou têm referência a sujeitos que perambulam de uma a outra parte; e também família e grupos de amigos e casais de amantes que nasceram aqui e lá, e que se encontram. A maior parte da ação vai de uma velha casa de aluguel em Pelotas, no sul do Rio Grande, até as tribunas do Estádio Centenário, em Montevidéu. E, sobretudo, Jaguarão.

Mas há também o Maracanã, Buenos Aires e a Inglaterra, principalmente se considerarmos que os personagens viajam a estes lugares pelas ondas dos grandes aparelhos de rádio, pelas notícias de jornal, pelos álbuns de fotografias com os jogadores das copas de 1930 e 1950, pelo que os outros contam, pela esperança e pela memória. Essa geografia imaginada está bem viva no peito e na mente dos habitantes daquelas paragens: meninos cheios de sonho, moças que ficaram por casar, mentirosos ordinários, gente que deixou de partilhar a razão de todos os outros.

O futebol está em todas as histórias, mas em cada uma de modo muito diferente. É direto e apaixonado em algumas e aparece apenas de raspão em outras. Para um amante do esporte como eu, alguém que sabe que esse amor é algo que se imprime na gente desde pequeno, bateram fortes contos como “Aquela tarde impossível” e “Encanto de Futebol”, que unem futebol e meninice – pode haver algo mais importante que uma tarde de futebol para um guri?

Porém, os contos de que mais gostei foram “Maria Adelia”, “Jim”, “Empate” e “O pardo Maciel”. Nos dois primeiros, o futebol é apenas um coadjuvante. Em todos, o que está presente é o mistério e a incerteza da vida. E a paixão por imaginar o que teria ocorrido com este ou aquele. Os personagens se fazem essas perguntas. As escolhas narrativas do autor, com foco variando entre diversos personagens secundários, permitem que se fale de perto, mas nem sempre contando com a certeza sobre as motivações e, por vezes, mesmo sobre os acontecimentos. É a dicção do contador de histórias utilizada na medida certa, sem concessões, porém com verdadeira compaixão (eu diria, com companheirismo) pelas existências de seus personagens.

Vou ler mais de Aldyr Garcia Schlee.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Cidades invisíveis, mundos infinitos - pensando sobre Calvino, Pólo e o Kahn

Este post do Milton Ribeiro, bem como os comentários ali realizados, me fizeram voltar a Calvino e Borges. 

Amo “As cidades invisíveis”, de Calvino. É uma das minhas 10 obras preferidas (que, na realidade, devem somar mais de 50, entre elas Ficções, do Borges). Parte do texto abaixo, é transcrição do meu comentário lá no post.

Uma das coisas que mais gosto no livro de Calvino é o fato de que Kublai Kahn conquistou/herdou o maior de todos os impérios, mas está condenado a jamais conhecer muitos de seus territórios. Ele é um imperador incompleto. Quem olhar para ele, poderá ver vazios pungentes aqui e ali em seu corpo imperial. O Império é grande demais para os limites dos deslocamentos a cavalo, em camelo, nos barcos a vela e remo. O Império é grande demais para uma única vida. Assim, para conhecer o seu próprio Império e, de alguma forma, conhecer a si mesmo, o Imperador precisa dos outros, das narrativas que lhes fazem.

Então, ele faz uso de emissários, encarregados de viajar pelos confins e dar-lhes a conhecer através de seus relatos. Dentre eles, Marco Pólo é o mais amado, não porque viaje mais rápido ou percorra maiores distâncias, mas por sua arte de narrar. É através da palavra de Pólo que se presentificam as cidades para Kublai Kahn. Através, portanto, de um jogo inter-subjetivo que articula três pontas: o próprio Imperador, o narrador-viajante e as cidades, que nunca se saberá se existem mesmo ou se têm aquela forma. Mas não importa, porque a narrativa é o modo delas existirem para a experiência do grande Kahn. Pólo é o mago que restitui a inteireza ao imperador despedaçado.

Mas ninguém se engane com essa minha conversa sobre limites e inteireza. Outra característica do império do Kahn, e também das narrativas de Pólo, é que não se pode demarcar com certeza as suas fronteiras. Nas suas fronteiras não há muralhas. Há sim imensos espaços vazios, outros que são estradas, rios, oásis onde se misturam povos vizinhos e os habitantes do Império. Por ali vão e vêm o vento, os mercadores, os fugitivos, os viajantes.

O fato de ser impossível conhecê-lo de todo facilita-lhe a qualidade de infinito, de algo que pode ser continuamente reconstruído.

(ao que parece, a imagem que usei é o Mapa Mundi, de Fra Mauro, do século XV, talvez inspirado nas narrativas de Pólo. Busquei neste site aqui)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

No Coração do Império




Quando penso nas convulsões na Inglaterra, é inevitável lembrar dos pensamentos do personagem de “O Coração das Trevas”, enquanto descia o rio, partindo do coração do Império, cuja luz a todos cegava, para o mundo da “escuridão”. Há muitos universos nessas palavras:

“E nada é realmente mais fácil para um homem que tem, como diz o ditado, ‘seguido o mar’, com reverência e afeição, do que evocar o grande espírito do passado nos trechos mais baixos do Tâmisa. O fluxo da maré corre para cá e para lá num trabalho incessante, repleto de memórias de homens e navios que conduziu ao lar e a batalhas no mar. Conheceu e serviu a todos os homens de quem a nação se orgulha, de Sir Francis Drake a Sir John Franklin, todos fidalgos – com ou sem títulos – os grandes cavaleiros andantes do mar. Deu origem a todos os navios cujos nomes são como jóias brilhando na noite do tempo, desde Golden Hind, voltando com seus largos costados cheios de tesouros, para ser visitado por Sua Alteza, a Rainha, e desaparecer, depois, nos desvãos da História, até o Erebus e o Terror, destinados a outras conquistas, e que jamais retornaram. Conheceu os navios e os homens. Partiram de Deptford, de Greenwich, de Erith – os aventureiros e os colonos; navios de reis e navios de homens de negócios; capitães, almirantes, os tenebrosos ‘atravessadores’ do comércio com o Oriente, e os ‘generais’ comissionados das frotas das Índias Orientais. Em busca de ouro ou fama, todos partiram por aquele rio, segurando a espada, e frequentemente a tocha, mensageiros dos poderosos, levando uma centelha do fogo sagrado. Que grandezas não navegaram suas correntezas até o mistério de uma terra desconhecida!... Os sonhos dos homens, semente de nações, germe de Impérios.”

O Coração das Trevas
De Joseph Conrad. Tradução de Albino Poli Jr.

domingo, 27 de março de 2011

Os Funerais da Mamãe Grande, de Gabriel García Márquez


Uma mulher com roupas austeras e olhar severo que viaja ao lado da menina com uma flor enrolada em jornal, em um trem poeirento que atravessa plantações de bananeiras e casas com varandas. Um dentista que se vê diante da possibilidade de despejar o ódio de toda uma cidade contra um tirano que a oprime. O honrado artesão quase-anônimo que constrói a gaiola mais bela de todos os tempos. A viúva Montiel, a passagem do tempo, o sentido da vida, a morte que não chega e um outono sem fim. O calor que faz com que os pássaros rompam as telas das janelas para morrer dentro das casas nas tardes mormacentas. Estes são alguns dos personagens e situações apresentadas ao leitor de “Os Funerais da Mamãe Grande”.

Gabriel García Márquez declarou, certa vez, o efeito mágico que a leitura de “A Metamorfose”, de Kafka, havia provocado nele. Quando lera sua inesquecível primeira frase, diz ter pensado: “mas então se pode fazer isso com literatura? Se é assim, isso me interessa.” Posso dizer o mesmo quanto a essa coletânea de contos do colombiano, que pouca gente cita.

Foi através de "Os Funerais da Mamãe Grande" que iniciou não apenas meu amor desmedido pela obra de García Márquez, mas também meu interesse mais genuíno por literatura. Lembro do dia em que peguei o livro na estante de casa. Meus pais o haviam ganhado havia muito tempo, de um tio. Provavelmente nunca leram. Era a primeira edição, com ilustrações do Caribé. Para mim, García Marquez sempre será ligado ao traço forte do desenhista baiano-argentino.

Muitos anos depois, diante da temerária tarefa de dar um livro de presente ao Milton Ribeiro(cujas leituras fariam inveja às bibliotecas-espelhos-universos-infinitos, de Borges), escolhi exatamente este. Porque nada poderia ser mais pessoal para mim. Milton leu e fez uma resenha (pode ser lida aqui), para a qual escrevi um comentário que, com poucas modificações, é a base do restante deste texto.

Dentre os livros de contos de GGM, "Os Funerais..." e “A incrível e triste história da cândida Erêndira e sua avó desalmada” são o ponto alto. Nisso, concordo com o charlles campos: “Olhos de Cão Azul” é um livro de autor ainda em formação, enquanto “Dez Contos Peregrinos” mostra um GGM que já parece um tanto cansado. Por sua vez, Erêndira é um livro mais solto, onde o autor vai mais fundo no realismo fantástico, com destaque para a novela-título e para "O Afogado Mais Bonito do Mundo", um dos contos mais bem escritos que já li, construído sobre um argumento quase inexistente.

Já "Os Funerais..." é uma coletânea que prefigura "O Veneno da Madrugada" e "Cem Anos de Solidão" e, por vezes, desenvolve temas que serão apenas referidos rapidamente nos livros mais alentados. A intertextualidade entre o livro de contos e aqueles dois romances é parte da estratégia de GGM para construir seu universo ficcional. O colombiano busca dar ao leitor a ideia de que, embora revele apenas alguns fragmentos, há um todo interligado, um mundo completo e organizado do qual ele só nos permite vislumbres, o que serve para atiçar mais e mais a curiosidade do leitor.

Assim, entre outros contos desse livro, "A sesta de terça-feira" está ligado a "Cem Anos de Solidão" (CAS). Passa-se em Macondo e, em CAS, saberemos que o ladrão referido no conto foi morto quando tentava entrar na casa da viúva Rebeca (personagem importante de CAS), provavelmente assassinado por ela. Essa mesma viúva reaparece no conto "Um dia depois de sábado", para mim um dos mais fracos da coletânea, embora nos apresente o padre Antônio Isabel del Santíssimo Sacramento del Altar Castañeda y Montero, que, só pelo nome, já merece menção.

Por outro lado, entre outros, o conto-título e "A viúva Montiel" estão ligados a "O Veneno da Madrugada" e nos dão uma visão mais lenta e mais "de perto" de passagens que se dão muito rapidamente naquele livro. Embora, no conto-título, GGM diga que a Mamãe Grande reside em Macondo, ele mudou de ideia ao escrever "O Veneno da Madrugada" e disse ter percebido que aquela era outra cidade.

Em conjunto, o livro inteiro é dedicado às relações de poder e aos malabarismos humanos para viver em uma sociedade onde esse poder é avassalador, antigo e parece eterno, como o calor de Macondo.

O conto-título é uma prefiguração de "O Outono do Patriarca", não apenas na temática e na imagem, mas inclusive no estilo barroco, transbordante, sem jamais perder o “pulso” da narrativa. A Mamãe Grande é apresentada como um misto de nutriz, de mãe-terra e de dona de bordel, de onde emana toda a fecundidade, mas também toda a autoridade. Neste caso, ela não apenas desempenha todos os atributos míticos do feminino, mas também usurpa os dons do controle e da severidade tradicionalmente associados aos homens mas que, no universo de GGM, pertencem às mulheres. Elas é que fazem o mundo seguir girando. Os homens, em geral, são uns desvairados.

É de poder que se trata em “Um dia desses”, quando o Sr. Escovar, dentista sem título e bom madrugador, fez com que o tenente, sentado em sua cadeira, com um lado do rosto inchado como um melão e sem barbear, nos pagasse vinte mortos. São essas regras imemoriais que encontram o desafio heróico da mulher de ”A sesta de terça-feira". O leitor vai junto com essa senhora que entra em Macondo na hora da sesta (mais uma lei que desafia), decidida a enfrentar a cidade. Mais não conto para não estragar a história. Apenas saibam que essa Antígona caribenha me acompanha até hoje.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Luz em Agosto, de W. Faulkner - Parte 2

Luz em Agosto foi publicado em 1932 e é um romance de grande estatura literária. Tenho certeza de que, nesse tempo todo, deve ter se prestado a centenas de teses, artigos, livros, que provavelmente exploram suas múltiplas dimensões literárias, sociais e psicológicas. A esse respeito, li apenas os belos textos do Charlles Campos e da Caminhante, em seus blogs. O que segue, na segunda parte desse texto, são notas de uma leitura feita em tardes de calor escaldante de um verão desumano. E se centram em apenas um dos fios dessa refinada tapeçaria tecida pelo autor, a partir de um fluxo de pensamento que não conseguiu me abandonar desde a leitura. Escrevo sobre a relação entre a trajetória de Joe Christmas e ética religiosa que age como estruturante cultural no Sul dos Estados Unidos, tal como retratado por Faulkner nesse romance. Desde já sugiro aos navegantes que aqueles que não leram Luz em Agosto, não leiam agora os comentários que seguem, pois eles revelam muito do que o autor trata habilmente de esconder do leitor nos capítulos iniciais. A descoberta dessas partes da trama compõe a construção do prazer lúdico da leitura. É apenas uma sugestão, mas, com certeza, eu não abriria mão dele.

A trágica aventura de Joe Christmas (como disseram a Caminhante e o Charlles, um “solitário, calejado, sofrido, maltratado”) instala uma impressão funda no leitor. O que quero destacar aqui é apenas um dos aspectos que poder ser lido a partir desse personagem. Joe Christmas, possivelmente, tem ascendência negra e branca, embora sua aparência permita que passe por branco, naquela sociedade racista.

Em outras palavras, trata-se de um híbrido, um mestiço em uma cultura que não admite a mistura, uma cultura feita e refeita por gente que se esmera em construir e preservar barreiras. Sejam elas barreiras raciais ou diques para represar os desejos. Uma cultura que, em um paradoxo que é apenas aparente, tem flexibilidade para aceitar a mobilidade, desde que essa mobilidade não ultrapasse uns poucos, mas inderrogáveis princípios, que formam aquilo que os brancos acreditam ser as leis da natureza. No Sul retratado por Faulkner, uma dessas leis estipula que os pretos trazem consigo o sinal da danação, de sua condenação pelo Senhor Todo Poderoso. Nesse contexto, qualquer mistura carrega duas marcas tidas como diabólicas: em primeiro lugar, denunciam a presença do sangue negro; em segundo, criam um hibridismo, em um mundo que não suportava o desmanchar dos limites e das fronteiras. Esse hibridismo é logo desfeito por ser tão monstruoso que é inimaginável: a cultura não o concebe e não o admite. Se a pessoa tiver qualquer parte de sangue negro reconhecível, será negro, porque será, para essa cultura racista e puritana, um impuro.

Veja-se que, até os derradeiros instantes de sua vida, quando a possível verdade sobre seu passado lhe é revelada pela Velha Vestida de Roxo, o próprio Christmas tem dúvidas sobre sua história, não tem certeza se tem mesmo o sangue negro. Aliás, o leitor nem mesmo consegue ter essa certeza ao final do livro. Tudo é apenas presumido. Porque nada pode ser fácil de deslindar quando o assunto é uma mistura, em uma cultura que a considera um tabu.

Esse hibridismo tratado como dualidade (porque não consegue ser verdadeiramente uma mescla) é estruturante dos conceitos que o próprio Christmas vai empregar quando construir narrativas para tentar compreender sua própria trajetória. Quando compuser uma narrativa para tentar dar sentido à sua própria vida com “a memória que acredita e o conhecimento que recorda”, nas palavras de Faulkner. É por isso que esmurra a moça negra no celeiro, associando-a à sua porção que considera amaldiçoada. Associando-a a uma possível imagem da mãe, já que, àquela altura, não sabia de qual de seus desconhecidos pais tinha herdado a porção de sangue negro.


É desse modo que se constituíram duas das fases de sua vida. Uma delas quando está sob a tutela do padrasto Mr. Mc Eachern, que encarna um quase-arquétipo paternal do mundo dos brancos e da ética puritana. Educado assim, abaixo de surras e orações, de trabalho e silêncio, Christmas chega, finalmente, a ter algo de seu: uma vaca, sua propriedade, recompensa por seu trabalho. Porém, quando resolve colocar a perder tudo e experimentar o que sente como sendo “o outro lado” de sua natureza, é exatamente essa a vaca que vende, penetrando no submundo da cidade e, por fim, tendo provavelmente assassinado o padrasto. Então sairá pelo mundo e procurará viver como os negros, que sua própria imersão na ética do Sul o sugere ser o caminho da inversão de tudo que havia experimentado até aquele momento.

Contudo, no universo de Faulkner, o desventurado Joe Christmas está condenado a partilhar dois mundos, sem ter a chance de optar por apenas um deles. E a sofrer poderosa influência dessa ética que o despreza. Isso se expressa, por exemplo, no ódio que Christmas tem a ser alvo de piedade. O que fica claro nas diferentes relações que mantém com algumas das mulheres e dos homens da sua vida. Lembremos que ele enfurece quando Miss Burden declara que seria tolerante se ele lhe roubasse, quando se tornasse seu advogado. A mesma atitude condescendente com alguém inferior que se quer agradar, que antes já havia sido a de Mrs. Mc Eachern e que o fazia odiá-la.

Já, às figuras paternas, fosse o Porteiro do Orfanato ou o implacável Mr. McEachern, mesmo com toda a rigidez e a violência e o ódio que lhe reservavam, Joe Christmas dava respeito, porque o tratavam como alguém capaz de suportar o horror. Tratavam-no como um forte. Interessavam-se por ele, mas sem condescendência. Christmas odeia que lhe dispensem condescendência. Associa essa atitude a uma emasculação. Não por acaso, essa será a violência última que sofrerá. Por ironia, mas de modo muito significativo, a verdadeira castração virá das mãos de alguém que é homem e branco. Mais que isso, um representante oficial de todo o pensamento hegemônico que dita as regras sob as quais está organizado aquele mundo.

Castrado, Christmas não poderia jamais procriar, ainda que sobrevivesse. De fato, não havia procriado em nenhum dos vários relacionamentos que mantivera ao longo da vida. Aliás, esse foi justamente o pomo da discórdia entre ele e Miss Burden. Assim, não disseminaria a abominação que é, e que o tornava uma quimera, algo impensável para aquela cultura.

Esse repúdio a ser vítima de piedade, a ser reconhecido como fraco, que está entranhado na alma de Christmas é, por sua vez, uma característica da ética religiosa de traços puritanos que preenche aquela sociedade como o ar que é respirado por cada um e metabolizado de diferentes formas, sendo assim apropriado de modo um específico por cada ser. Cada um cria uma variedade da mesma ética, que pode expressar-se tanto no colérico fanatismo do Tio Doc, na silenciosa violência de Mr. McEachern ou no orgulho legítimo de Mrs. Armstid, avisando ao marido que faria o que bem entendesse com o dinheiro ganho a partir da venda dos ovos das galinhas que ela mesma, e mais ninguém, teve o trabalho de criar.

Essa cultura que preza o trabalho, a disciplina, a obediência religiosa e vê nos negros o sinal inefável da danação eterna estriba-se na construção de certezas inabaláveis. Não se deve admirar que a bíblia e os rituais cristãos venham a servir como o repositório dessas certezas. Eles tem se prestado para isso há milênios. Mas, não nos enganemos, não são a crença e a fé em deus que são essenciais. O que é primordial para os camponeses de macacão, com seus cachimbos, mulas e rezas nas quartas e domingos, é própria possibilidade de ter certezas. A possibilidade de acreditar que há princípios sólidos e imutáveis ordenando o mundo. Nada expressa melhor essa ideia do que a percepção de que os homens que faziam o cerco a Christmas agiriam sem qualquer possibilidade de ter piedade. Porque ter piedade seria admitir que poderiam estar errados, que a ordem universal talvez fosse uma ficção ou então ser insondável mesmo para os crentes. Naquele mundo, nada poderia ser mais subversivo.


Luz em Agosto, de W. Faulkner - Parte 1

Cheguei a Luz em Agosto, de Faulkner, através dos posts e debates entre Charlles Campos e a Caminhante. Enquanto os lia, minha vontade de, finalmente, tirar o atraso na leitura de Faulkner se tornava irresistível. Coloquei o Miguel no carro e fui até o campus da UFSM, onde retirei o livro na biblioteca. O post ficou tão grande que o dividi em dois. O primeiro é uma pequena apresentação e publico hoje. O outro, que vou publicar amanhã ou depois, eu não recomendo para quem ainda não leu o livro, porque "entrega" partes importantes. Tudo pensado bem rápido e no calor do momento. Calor, aqui, não é apenas figura de linguagem, pois o livro foi lido nas tardes abrasadoras de janeiro.


Luz em Agosto, de William Faulkner. Editora Nova Fronteira, 2a. ed., 1983. Trad. Berenice Xavier. (Edição original é de 1932)



Uma mulher se desloca por uma poeirenta estrada do norte do Mississipi. Avança com uma determinação tranquila, ora conseguindo carona nas carroças dos camponeses, ora mesmo a pé. Está grávida. A todos que lhe ajudam, ela conta sua história, ainda que não tenham pedido. Vem andando desde o Alabama, estado vizinho, à procura do marido que partiu atrás de trabalho e que prometeu mandar buscá-la quando se estabelecesse. Seu destino, agora, é a cidadezinha de Jefferson, onde soube que ele talvez estivesse trabalhando em uma serraria.

Nesse estabelecimento, está empregado Byron Bunch, que trabalha mesmo aos sábados à tarde, quando todos os seus companheiros deixaram o local ao meio-dia. Bunch segue sua rotina naquelas tardes solitárias, respeitando todos os horários como se estivesse em um turno de trabalho regular. Assim, pensa fugir do mal. Em uma dessas tardes de sábado, ele vê surgir uma coluna de fumaça no horizonte. Acaba sabendo que se trata de um incêndio na propriedade de Miss Burden. Nesse local, em uma antiga cabana de negros, vivem dois ex-trabalhadores da serraria. Bunch recorda deles. Joe Brown era extrovertido, eloquente, de boa aparência e claramente um patife. Já Joe Christmas era um tipo estranho, trabalhando nos primeiros dias com camisa e gravata. Enquanto medita sobre a possibilidade dos dois estarem envolvidos no incêndio, Bunch recebe a visita, na serraria, da mulher que vem em busca do marido ausente. Esse encontro põe os personagens em contato no tempo presente e, a partir daí, o autor começa a tecer uma rede bem urdida que dá corpo ao romance.



A técnica narrativa empregada por Faulkner faz a ação no presente andar lentamente. E aposta em enveredar-se pelo passado de cada um dos personagens, conduzindo o leitor em um mergulho ora melancólico, ora vertiginoso sobre suas histórias. Quando retornamos ao presente ficcional, voltamos cheios de novas informações, mas, sobretudo, de sensações e de conhecimento sobre a personagem. A cena do presente à qual retornamos está no mesmo instante em que a havíamos deixado, mas nossa percepção sobre ela será outra e nosso conhecimento, maior. Os personagens, que antes haviam apenas passado pela cena como um desenho de fundo, ganham outras dimensões. Ganham carne, sangue, cheiro, dor e memória. Não é que suas histórias pregressas nos expliquem mecanicamente suas ações no presente. Faulkner, autor maior, não cai nessa armadilha. O que ocorre é que, ao voltarmos, encontramo-nos capazes de empatia para com o personagem. É isso o que redimensiona totalmente a posição do leitor em relação às ações passadas no presente e o faz dar novos sentidos à trama que se desenrola à sua frente. A dura compaixão sem concessões com que Faulkner aborda cada história pessoal faz uma estranha, mas interessante, composição com a escolha de uma narrativa onde não falta o uso descarado do suspense, da arte de enganar o leitor. Ali, o contador de histórias se casa muito bem com o crítico social e com o poeta da condição humana.

Luz em Agosto é um romance onde é explorado, até o fundo, o drama de seres que lutam não apenas com seus afetos, mas com um poderoso universo cultural, assentado em uma rigorosa ética religiosa que lhes amarra os movimentos, atormenta as consciências e quer limitar a realização de seus desejos. O sul dos Estados Unidos, racista por princípio e inescapavelmente religioso, vai aparecendo como uma imagem maior de um quebra-cabeças, da qual os personagens e suas vidas aventurosas ou patéticas são as peças. É uma imagem que se concretiza muito para além dos estereótipos. Os dramas giram em torno do modo como cada um vive com e contra essa cultura; seja reagindo contra ela, como Joe Christmas e Lena Grove; seja negociando e submetendo-se, como o ex-ministro protestante Hightower; seja radicalizando-a e fazendo de sua vida um teatro que mostra a todos as formas mais potentes dessa ética religiosa, como Mr. McEachern. Assim, entre outros sentidos possíveis, o romance todo é uma aula ensinando que é pela ação das pessoas em construir suas trajetórias, em lidar com seus fantasmas e com os outros, que o Sul se constrói e que o racismo e o puritanismo religioso ganham forma concreta.