sábado, 4 de fevereiro de 2012

Contos de Futebol, de Aldyr Garcia Schlee




Eu nunca havia lido o Aldyr Garcia Schlee. Conhecia-o por ouvir dizer. Um escritor, morador da fronteira com o Uruguai e o homem que criou o uniforme canarinho da Seleção Brasileira, ao ganhar um concurso, em 1953. Depois, uma amiga foi a um evento sobre o pampa, em Jaguarão, e voltou encantada com a fala que o Schlee fez lá. Então, assisti a “O Banheiro do Papa”, belo filme uruguaio, baseado em um conto seu. Por fim, li esta entrevista que o Iuri Müller e o Maurício Brum fizeram com ele.

Pois acabo de ler pela primeira vez um livro dele “Contos de Futebol”. Publicado, anteriormente, no Uruguai, chega agora em português pela editora Ardotempo. Nada de surpreendente para um autor que cresceu na fronteira, que escreve em português e em espanhol, que criou o uniforme da Seleção do Brasil e sempre viveu o futebol uruguaio com enorme intensidade.

A obra de Schlee é trabalho de fronteiriço e os contos se passam todos na ampla zona de fronteira entre Brasil e Uruguai, ou têm referência a sujeitos que perambulam de uma a outra parte; e também família e grupos de amigos e casais de amantes que nasceram aqui e lá, e que se encontram. A maior parte da ação vai de uma velha casa de aluguel em Pelotas, no sul do Rio Grande, até as tribunas do Estádio Centenário, em Montevidéu. E, sobretudo, Jaguarão.

Mas há também o Maracanã, Buenos Aires e a Inglaterra, principalmente se considerarmos que os personagens viajam a estes lugares pelas ondas dos grandes aparelhos de rádio, pelas notícias de jornal, pelos álbuns de fotografias com os jogadores das copas de 1930 e 1950, pelo que os outros contam, pela esperança e pela memória. Essa geografia imaginada está bem viva no peito e na mente dos habitantes daquelas paragens: meninos cheios de sonho, moças que ficaram por casar, mentirosos ordinários, gente que deixou de partilhar a razão de todos os outros.

O futebol está em todas as histórias, mas em cada uma de modo muito diferente. É direto e apaixonado em algumas e aparece apenas de raspão em outras. Para um amante do esporte como eu, alguém que sabe que esse amor é algo que se imprime na gente desde pequeno, bateram fortes contos como “Aquela tarde impossível” e “Encanto de Futebol”, que unem futebol e meninice – pode haver algo mais importante que uma tarde de futebol para um guri?

Porém, os contos de que mais gostei foram “Maria Adelia”, “Jim”, “Empate” e “O pardo Maciel”. Nos dois primeiros, o futebol é apenas um coadjuvante. Em todos, o que está presente é o mistério e a incerteza da vida. E a paixão por imaginar o que teria ocorrido com este ou aquele. Os personagens se fazem essas perguntas. As escolhas narrativas do autor, com foco variando entre diversos personagens secundários, permitem que se fale de perto, mas nem sempre contando com a certeza sobre as motivações e, por vezes, mesmo sobre os acontecimentos. É a dicção do contador de histórias utilizada na medida certa, sem concessões, porém com verdadeira compaixão (eu diria, com companheirismo) pelas existências de seus personagens.

Vou ler mais de Aldyr Garcia Schlee.

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