sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O calor, o Leão e um dia nas minhas férias

O calor de uma explosão nuclear deve ser assim. Um calor que queima a pele da gente pelo simples contato com o ar, que encharca, molha, aplasta, pesa e empurra a pessoa contra o chão, tornando heróico o mínimo movimento. O calor é quase sólido, é denso. Andar dentro dele é como tentar mover-se em um soterramento. Verão é bom para quem está de férias e perto do mar. Ou em Curitiba. Mas nunca em Santa Maria, a cidade que me fez amar o inverno ainda mais. Pois é neste calor e nesta cidade, que tenho passado os últimos três dias me deslocando de um canto a outro, tentando receber um dinheiro que o governo me deve. Rapaz, você não tem noção de como o governo é sovina. Na hora de pegar é ali, na fonte. Depois, para devolver o que pegaram errado, é um caminhão de burocracias. É papel pra lá, papel pra cá, tira cópia, imprime, telefona para Porto Alegre, ouve a porcaria da musiquinha de espera, pede pelamordedeus que te mandem um papel assinado, pelo correio. Não mandam, daí eu tiro pela internet e rezo para que aceitem. Aí vai na Cova do Leão, pega uma senha para ser atendido, para pegar uma senha, para agendar um dia na outra semana para ser atendido. Acontece que esse dia era hoje, o horário às 13:35, a temperatura, 39 graus na sombra. Passo em uma loja de Xerox para tirar cópia de 2.485 papeizinhos com notas de despesas médicas. O dono é evangélico, está ouvindo um DVD de um show gospel brasileiro e cantando junto, enquanto faz as cópias. Que mal me pergunte, pra que tanta cópia? É para tentar receber a restituição do imposto de 2009, digo eu. Mas o que foi que te aconteceu? Respondo que a camélia não caiu do galho (ele não ri). Então me envareto um pouco e conto que eram despesas médicas. Ele diz que o governo é uma cambada de sem-vergonhas e que a única coisa que se pode fazer é mandar uns quantos homens-bomba para Brasília, mas que não vai fazer isso porque aqui o povo é tudo frouxo, ALELUIA! Porque os políticos estão tudo com a alma condenada desde que nasceram. Não vê agora é homem com homem, mulher com mulher e querem tirar os crucifixos das paredes, mas Deus está vendo tudo lá de cima, ALELUIA! Rapaz, olha para o que tu tá fazendo e copia direito os papeizinhos porque aqui já faltam dois! Saio de lá arreliado e me assusto com o que parece um tiro, mas era só o cano de uma Yamaha 125 com um gordão em cima. Não posso ver gordo em motocicleta pequena que lembro sempre de um amigo do meu pai, muito mal-educado, que dizia “lá vai o gordo com uma motinho no meio do rabo.” Então vou até o centro da cidade, deixo o carro no estacionamento. Sim, porque tenho carro 1.0 o que é um luxo e sei que estou me queixando de barriga cheia porque a maioria dos habitantes desta cidade depende do péssimo transporte coletivo que há por aqui, em ônibus sem qualquer ar condicionado e nem estariam pleiteando restituição de imposto de renda porque nem tem renda. Mas, mesmo para minha vida de classe média a coisa não estava fácil. Escuitem. Me arrasto então até a Receita Federal suando como uma tampa de panela onde se cozinha um ensopado e, entrando no lugar, passo do Arizona para a Antártida e quase entorto a boca com o ar condicionado marcado em 19 graus lá dentro, mas vão para a ponte que partiu, querem matar os contribuintes, é isso, é? Chego até lá e consigo ser atendido no horário. Mas me informam que, provavelmente, só vou receber metade do que me devem e sabe-se lá quando. Eu olho feio, mas o Leão nem te ligo. Saio de lá ainda com mais raiva, agora da Antártida para o Saara e acho que vou ter um treco. Quando chego em casa, tomo um banho e me sento em frente ao ventilador pensando que hoje não vou à fisioterapia. Sim, porque velho não faz esporte, nem academia, velho faz fisioterapia. Lá são todos muito queridos e competentes, mas na penúltima vez que eu fui tocava uma música new age de fundo, algo como cachoeira com flauta pan e eu já não agüentava mais e comecei a ficar com vontade de ir ao banheiro. Então entrei nessa baboseira de força do pensamento e pensei forte para que aquilo parasse e descobri que isso funciona mesmo, você pede e o universo atende, só que o universo tem um senso de humor filhodumaputadocaralho e dois velhos oficiais do exército aposentados, na sala ao lado, começaram a se entusiasmar em uma conversa sobre como era bom o tempo do regime militar e eu ali no escuro, ouvindo aquela conversa, todo amarrado e tomando choque me senti num porão da ditadura, credo, sai de mim. Não... hoje não vou a lugar nenhum. Vou ficar em casa e aproveitar o resto deste maravilhoso dia de férias de verão.

11 comentários:

  1. Senti que a referência a Curitiba foi pra mim. Só porque ontem eu até coloquei um cobertorzinho pra dormir...

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  2. Hahahaha. Isso é um relato pessoal ou ficção? Não importa. Gostei muito! Tenho muitas lembranças sobre minhas batalhas com o governo para entender o que diz. (Quem não as tem?).

    Achava que só eu era muito isolado, no meio de evangélicos, por aqui.

    Abraços.

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    1. Relato pessoal, Charlles. É a música da minha fúria.

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  3. Ah... mas o texto até que ficou engraçado.

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    1. Entre outras funções, o humor também é uma forma de lidar com o sofrimento.

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  4. Faltou um "pata pss" (ou "tundunts") na hora da camélia...
    hehehehe
    Mas faltou mesmo sagacidade pro filho de deus entender a malacagem. Rir é coisa do diabo mesmo.
    Tocou em dois assuntos que me preocupam (além do calor e da burocracia): fervor religioso intolerante e saudosistas da época da ditadura.
    Ainda esses dias vi uma matéria num jornal em Bagé que discutia se a data correta da "revolução de 64" era 31/mar ou 01/abr. O professor entrevistado afirmou que isso era uma prática ideológica, dizer que a "revolução" começou em 1º de abril pois era óbvio que ela começara no dia 31... Mas o pior estava por vir, pois o repórter ressaltou que isso era o de menos em face a um período ao qual muitos militares e também muitos civis apoiam até hoje. Pior que, infelizmente, sabemos que isso acontece mesmo. Os bobos somos nós...

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    1. Da próxima vez, te levo comigo, Leandro, e tu faz o "pata pss"...

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  5. Nunca comentei aqui, mas diante do post não pude deixar de comentar minha identificação com a burocracia em questão...
    Só que, como você mesmo disse, um pouco pior por não ter carro nem renda,depender do ônibus que ainda quer sugar a gente.
    Envolvida com um projeto pro governo do Estado e sua maré de papéis, xerox, cópias autenticadas, certidões negativas de tributos e toda uma cambada de documentos que pedem a mais...
    Infelizmente isso não tem data pra acabar e vou ter minha vida toda cercada de burocracias ou BURRO(CRACIAS), cobranças de todos os lados, sejam do leão, sejam em projetos, na própria Universidade,nos bancos ou até em hospitais ... Por um lado chega a ser pedagógica a coisa... é tanta burocracia que a gente acaba aprendendo como tem que fazer pra quando alguma outra instituição fizer o mesmo com você...
    Por outro lado, parece castigo... humilhação... É incrível como fazem a gente correr, parece que eles apostam quem vai conseguir ferrar mais a gente...
    No final, a gente se sente até bem quando dá certo, é motivo de festa até!

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  6. Acho que você pegou um ponto crucial: é tanta coisa que parecem quererem nos vencer no cansaço. E se, depois de enorme odisseia, conseguimos o que era nosso direito, então comemoramos como uma conquista. Mas era para ser simples e direto. Impossível não se sentir em um cenário kafkaniano.

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  7. E tem maluco que ainda canta "gosto muito de te ver, leãozinho, caminhando sob o sol" ....

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