quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tlön e a História


Ando com a impressão de que a História é um gênero da literatura fantástica. Talvez um gênero bem complicado, porque lida com a verdade.

Vejam só este excerto de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Borges:
 
Ahora tenia en las manos un vasto fragmento metódico de la historia total de un planeta desconocido, con sus arquitecturas y sus barajas, con el pavor de sus mitologías y el rumor de sus lenguas, con sus emperadores y sus mares, con sus minerales y sus pájaros y sus peces, con su álgebra y su fuego, con su controversia teológica y metafísica.” (Ed. Emecé, p. 23)

Não é exatamente isso o que fazemos?

Na página seguinte, alguém sugere que desistam de procurar os outros volumes da história e do mundo de Tlön, e sim que os escrevam. Calcula-se que uma geração de tlönistas deve bastar.

Parece-me bem semelhante às constelações de historiadores cartografando mundos desconhecidos.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Fundamentalismo religioso e esfera pública

Já faz algum tempo que acompanho um movimento de resistência e tomada de posição dos ateus e agnósticos nas redes virtuais. De modo militante e, por vezes, provocativo, procuram contrapor-se ao que chamam de avanço de uma religiosidade fundamentalista, vinda principalmente das chamadas igrejas neo-pentecostais, mas não só delas. Uma das polêmicas recentes se deu em torno deste texto da excelente jornalista Eliane Brum.

Demorei a me manifestar sobre o tema. Em primeiro lugar, porque não acho que eu tenha que ter posição a respeito de tudo. Aliás, se tem coisa que me dá nos nervos é uma pá de gente metida a intelectual que parece considerar que é sua missão divina opinar sobre tudo e qualquer coisa na net. Além disso, como sempre, procuro evitar a tentação de simplificar demasiadamente as coisas. E, por fim, tenho por princípio o respeito a todo sentimento e filiação genuíno das pessoas, como são muitos afetos religiosos, desde que não se transformem em base para regras sociais estendidas aos não-crentes.

Há bons estudos que fazem as perguntas certas: como e por que essas Igrejas funcionam e fazem sucesso? Entre várias respostas estão, por exemplo, o senso de comunidade e ajuda mútua que proporcionam. Certa vez, um conhecido de família evangélica me contou que, quando criança, precisaram se mudar, em busca de emprego. Na nova cidade, foram acolhidos por “gente da Igreja” a que pertenciam, o que permitiu que seu pai conseguisse um emprego e uma forma de começar a nova vida. O que, naturalmente, implicaria em novos dízimos para a Igreja.

Quando escrevo “senso” de comunidade, vou além dessas efetivas prestações materiais e incluo a própria sensação de conforto emocional oferecida pela comunidade. Uma arma potente para enfrentar a insegurança aterradora da vida. Sobretudo para aqueles que têm poucos meios de sobrevivência (embora esse nem sempre seja o público dessas Igrejas). Essa segurança emocional se apresenta também no oferecimento de uma versão simples e organizada das “regras do mundo”. Preto e branco: quem as segue, vai ao paraíso (começando por uma vida melhor aqui mesmo). Quem não segue, terá danação eterna. Os males deste mundo são causados por erros em relação a essa moral, infundidas por um ser maligno. A Igreja também oferece as armas e a ajuda para lidar contra essa fonte de males.

PORÉM, compreender nada tem a ver com gostar e concordar.

Nesse ponto, estou sintonizado com a reação de gente como eu: ateus e agnósticos. Fico apavorado quando vejo as ações coordenadas da “bancada evangélica” no Congresso contra as pesquisas com células tronco, contra a reprodução assistida, contra a união legal de pessoas do mesmo sexo. Lutamos por milênios para abrandar o sofrimento de pacientes com doenças neurológicas graves. Primeiro, para saber o que eram. Depois, para tentar dar esperança de uma vida mais autônoma, mais livre, às pessoas que sofrem desses males. E são milhões de seres humanos. Lutamos para que casais que não poderiam ter filhos pelos meios “naturais” (seja lá o que essa palavra signifique), pudessem realizar um sonho gestado a dois, às vezes acalentado por anos a fio. Para que pessoas que se amam e que teceram uma vida comum possam ter o direito de gerir o que construíram em conjunto. Essas são batalhas ainda travadas na atualidade, mas onde muito campo foi ganho.

É impossível para mim falar “de fora” desse assunto. Meu pai sofreu do Mal de Parkinson por mais de 40 anos. Ver a doença avançar inapelavelmente sobre sua mente hábil e sobre seu coração generoso não permite que eu tome outra posição. Meu filho só está comigo porque pudemos contar com a reprodução assistida. Eu sei que sou melhor por causa dele. Tenho amigos homossexuais a quem amo como irmãos. Ver a luta que precisam travar todos os dias, ataca minha alma. No mundo desenhado segundo os desígneos dos deputados evangélicos, que se dizem “emissários de deus”, gente como o meu pai deve sofrer e degenerar sem nenhuma esperança através de uma morte lenta e terrível. Nesse mundo, meu filho não estaria aqui. E meus amigos deveriam sofrer quietos a absoluta repressão de sua natureza.

Para mim, não é mais possível ficar em silêncio. O Estado que constituo como cidadão deve garantir a liberdade de credo para todos aqueles que assim o desejarem. Mas deve ser vigilante e ativo para impedir que crenças particulares coloquem freios nos avanços que a humanidade vem construindo para minorar o sofrimento e a dor. Para criar esperança.

Eu lamento que os modos de conseguir segurança e ajuda, para muitos, passem pelo dogmatismo religioso. Sei também que as devoções não dogmáticas podem, inclusive, ser fenômenos belos e interessantes. Posso concordar que assim seja, desde que isso não interfira nas formas como as leis e a organização pública se estruturam. Se for dessa forma, tudo bem que se acredite em deus, em Ísis, Osíris, em Jupter, Marduk ou no Visa. Agora, uma confissão: quando penso nos pastores que nem acreditam no que pregam e lucram milhões. Bom, aí eu realmente lamento que o inferno não exista.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tudo bem

Este post do blog do meu amigo Vitor Simon, sobre a força das expressões cotidianas, me lembrou de uma que eu considero maravilhosa. Creio que é mais usada no Rio Grande do Sul, mas talvez me engane.


Dois conhecidos se encontram. Um deles inicia a conversa, como de praxe: e daí? 


O outro então discorre um rosário de desgraças: minha mãe morreu, meu pai está paralítico, minha irmã continua bebendo, meu filho perdeu no jogo tudo que eu tinha, perdi meu emprego, minha mulher me largou.

Depois uma pausa breve e infinita, o outro pergunta: "E no mais, tudo bem?"



Não é fantástico? Acabaram-se todos os tormentos, os tempos de caos, enunciados anteriormente.


O outro, vencido, nada mais pode dizer, senão a resposta esperada: "É... no mais, tudo bem."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Em silêncio

Era o final do meu terceiro dia em Montevideo. Depois de uma tarde abrasadora, passada metade em livrarias e metade em um simpósio, eu e uns colegas nos preparamos para percorrer a Avenida 18 de Julio, rumo à Ciudad Vieja. Nosso destino: a confraternização final do congresso. Nada mais prosaico, para quem costuma ir a esses eventos.

Acontece que, pela avenida, ia a manifestação do dia internacional de combate à violência contra a mulher.
Como se pode supor, houve atos no mundo todo. Ali, porém, a coisa parecia diferente. Talvez porque estivesse passando ao meu lado. Bem mais de mil pessoas, talvez o dobro, vestidas de negro. Em silêncio.

À frente, mulheres carregavam velas e cruzes púrpuras onde estavam escritos os nomes de suas mães, suas filhas, suas irmãs, suas amigas que haviam morrido vítimas da violência dos homens. Naquela que é uma das avenidas mais movimentadas da capital, ouvia-se apenas o som de milhares de passos.



Eu olhava aparvalhado quando meus colegas me chamaram para dentro. Já iam com a multidão. E me deixei ir. Fui olhando o rosto das pessoas, casais, velhos, crianças. Chegamos à praça. Fez-se um ato silencioso. Um silêncio de milhares.

Uma coisa é estar em um país estrangeiro e meter-se em algo assim pela atração do exótico. Quase como um programa turístico para quem não quer se parecer com o turista convencional. Comigo não foi assim. Foi espontâneo e surpreendente. Me vi no meio daquela gente, lendo os nomes das mulheres nas cruzes. Relendo. Mirando os olhos das mulheres que as carregavam.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Menino de alma leve, voando sobre o pelego

Meu avô contava histórias. Tomando mate, na varanda em frente à casa, nas viagens para “o campo” ou enquanto assava os churrascos de domingo. Histórias de seu pai alemão e de sua mãe cabocla. De seus irmãos sem fim. De tropeadas, de amores proibidos, de guerras tenebrosas. 

Havia uma narrativa que nunca faltava. Uma epopeia no fim do mundo. Uma migração para o oeste do Paraná, em 1952. Dois meses de viagem. A floresta, onças famintas, cobras que devoravam homens inteiros. Caminhar por dois dias sem dormir, no meio do mato, para buscar um naco de carne para minha avó grávida. Depois, o fracasso da empreitada e o retorno. Ouvi essa história mil vezes, mas nunca como queixa. Sempre como aventura.

Quando menino, passava as férias na casa deles. Já adulto, gostava de ir lá tomar mate e ouvir sempre as mesmas histórias. Porque nós é que mudávamos. Então as histórias também não eram exatamente iguais.

Nas duas vezes em que a minha mãe teve filhos, passou os primeiros dias na casa do meu avô. Eu, depois meu irmão, dormíamos em um bercinho ao lado da sua cama. Quando chorávamos, era ele quem acordava e nos levava até o quarto dos meus pais, para que minha mãe, meio dormindo, nos desse de mamar.

Ele me ensinou a fazer xixi nas flores dos jardins, a dizer barbaridades para os adultos, a levar os ratos que pegava na ratoeira, pelo rabinho, e jogar nas mulheres da casa. Nunca mais me diverti tanto.

Meu avô me ensinou a montar a cavalo e a dirigir. Faço os dois mal. O primeiro por minha culpa exclusiva. Ele era um ginete. O segundo, porque o professor também não ajudava nada.

Ele amava o campo, e andar a cavalo, e camperear. Eu não era de campo. Meu irmão sim, foi o filho ue ele nunca teve. Meu avô dizia que não havia sujeito mais feliz que ele, porque amava o que fazia. De tanto ouvir isso, larguei o Direito e fui fazer História.

Pensávamos muito diferente sobre a maioria das coisas. Ele era conservador, resistia a novidades, era cabeça-dura. Mas era amoroso como ninguém. Acarinhava os netos e as filhas. Quando chegava do campo, no fim do dia, dava um jeito de dar uns amassos na minha avó, quase derrubando-a por cima da pia ou atrás das portas.

Quando o Miguel veio para casa, ele, já nonagenário, percorreu mais de 100 quilômetros para ser um dos primeiros a embalar o pequeno.



Dele herdei a boca, as feições, a forma do tórax e o costume de dormir sentado. Queria ter aprendido seu otimismo, sua gana de não se entregar nunca, sua juventude eterna. Mas a vida não é exatamente como a gente quer.

O Vô Juvenal morreu ontem, aos 92 anos. E eu sinto que acabou uma era, na minha vida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Cidades invisíveis, mundos infinitos - pensando sobre Calvino, Pólo e o Kahn

Este post do Milton Ribeiro, bem como os comentários ali realizados, me fizeram voltar a Calvino e Borges. 

Amo “As cidades invisíveis”, de Calvino. É uma das minhas 10 obras preferidas (que, na realidade, devem somar mais de 50, entre elas Ficções, do Borges). Parte do texto abaixo, é transcrição do meu comentário lá no post.

Uma das coisas que mais gosto no livro de Calvino é o fato de que Kublai Kahn conquistou/herdou o maior de todos os impérios, mas está condenado a jamais conhecer muitos de seus territórios. Ele é um imperador incompleto. Quem olhar para ele, poderá ver vazios pungentes aqui e ali em seu corpo imperial. O Império é grande demais para os limites dos deslocamentos a cavalo, em camelo, nos barcos a vela e remo. O Império é grande demais para uma única vida. Assim, para conhecer o seu próprio Império e, de alguma forma, conhecer a si mesmo, o Imperador precisa dos outros, das narrativas que lhes fazem.

Então, ele faz uso de emissários, encarregados de viajar pelos confins e dar-lhes a conhecer através de seus relatos. Dentre eles, Marco Pólo é o mais amado, não porque viaje mais rápido ou percorra maiores distâncias, mas por sua arte de narrar. É através da palavra de Pólo que se presentificam as cidades para Kublai Kahn. Através, portanto, de um jogo inter-subjetivo que articula três pontas: o próprio Imperador, o narrador-viajante e as cidades, que nunca se saberá se existem mesmo ou se têm aquela forma. Mas não importa, porque a narrativa é o modo delas existirem para a experiência do grande Kahn. Pólo é o mago que restitui a inteireza ao imperador despedaçado.

Mas ninguém se engane com essa minha conversa sobre limites e inteireza. Outra característica do império do Kahn, e também das narrativas de Pólo, é que não se pode demarcar com certeza as suas fronteiras. Nas suas fronteiras não há muralhas. Há sim imensos espaços vazios, outros que são estradas, rios, oásis onde se misturam povos vizinhos e os habitantes do Império. Por ali vão e vêm o vento, os mercadores, os fugitivos, os viajantes.

O fato de ser impossível conhecê-lo de todo facilita-lhe a qualidade de infinito, de algo que pode ser continuamente reconstruído.

(ao que parece, a imagem que usei é o Mapa Mundi, de Fra Mauro, do século XV, talvez inspirado nas narrativas de Pólo. Busquei neste site aqui)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Oito motivos para ser amigo do Milton e da Cláudia


Claro, há muitos outros motivos, mas estes são alguns:

1- São receptivos, divertidos e inteligentes. Além disso, a Cláudia é bonita e o Milton é simpático!




2- Um dia, se tiver muita sorte, você poderá ser recebido na Edícula Real, no Solar da Gaurama, com sua sugestiva cortina de banheiro.


3- Você pode queimar o forno de micro-ondas deles e nada te acontece!


4- A Juno não pega.



5- A cozinha mágica da Cláudia


6- O Milton acredita nas minhas mentiras.


7- Eles têm amigos fascinantes, que podem virar seus amigos também!


8- Na casa deles, quando menos esperar, você pode ser surpreendido pela verdadeira BELEZA.